Contexto

A Vila Pirajussara, popularmente conhecida como Morro do Querosene, é um bairro situado na primeira elevação de terra, depois que se atravessa o Rio Pinheiros e sua várzea em direção à periferia, zona oeste da cidade de São Paulo. Com poucas ruas, nenhum prédio (proibidos pela lei de zoneamento), nos lembra o clima de cidades e vilas mais  antigas: as pessoas se conhecem, andam e conversam pelas ruas, sentam nas calçadas e se encontram nos muitos pequenos bares.

A vida comunitária é intensa. Ao longo do ano acontecem muitas festas  como o “futebol da libertação dos escravos”, passeios ciclísticos, Festas Juninas, Festa do Cosme e Damião, Lavagem do Morro e as famosas, de expressão metropolitana,  festas de “Bumba-Meu Boi”.

Histórico

A Vila Pirajussara é muito antiga. Com a grafia VILA PIRAYUSSÁRA,  aparece em censo demográfico realizado em 1765  registrando mais moradores do que o bairro de Pinheiros.  Aliás, percebemos que o Butantã  avançava sobre a área que hoje reconhecemos como pertencente a Pinheiros, já que é em Pinheiros que encontramos a Rua Butantã e é em Pinheiros que durante muitos anos esteve situado o Cartório Civil das Pessoas Nascidas no Butantã (sendo que nunca existiu, e nem existe,  Cartório Civil das Pessoas Nascidas em Pinheiros).

No começo do séc. XX, o Butantã era considerado Zona Rural, e só após a retificação do Rio Pinheiros, em 1930, ele passa a pertencer à região urbano.

A retificação do Rio Pinheiros foi realizada pela Companhia Ligth, que realizou as obras que inverteram o curso do rio com intuito de gerar e distribuir energia elétrica. A Prefeitura do Município de São Paulo, interessada no empreendimento, comprometeu-se a registrar como propriedade da Cia City, todas as terras que submergissem após a abertura das comportas. Aconteceu então, em 1929, a maior enchente da região. E quando as águas baixaram ficaram demarcados os loteamentos City Pinheiros (hoje conhecido por alto de Pinheiros), City Butantã, os terrenos lindeiros às marginais do Rio Pinheiros, Itaim e Brooklin.

A Cia City foi formada por 2 jovens arquitetos londrinos que chegaram em São Paulo em 1912 trazendo o conceito de Cidade Jardim. Eles logo adquiriram terras no Butantã. Esta Cia era muito respeitada, projetou e construiu o bairro do Pacaembu, o Jardim América e Jardim Europa. O projeto do loteamento City Butantã é apresentado logo após a retificação do Rio Pinheiros, em 1935  (as ruas levam o nome dos pracinhas que morreram na Revolução de 1932). Na primeira proposta de loteamento apresentada, aparecem esboçadas as ruas da Vila Pirajussara.

Os terrenos da Vila Pirajussara não são vendidos nesta época, os lotes da City Butantã agradam mais os compradores. Os lotes da Vila Pirajussara serão vendidos na década de 50, logo após o Jockey Club ser construído, lotes vendidos aos novos funcionários do Jockey, uma classe já não tão rica como aquela que habitou a City Butantã. Estes lotes foram vendidos pela Cia Melhoramentos da Pirajussara, companhia que ocupava o mesmo prédio da Cia City. Mas o loteamento nunca foi registrado. Foi apresentada uma Inscrição nº 3 que não chegou a ser registrada na Prefeitura do Município de São Paulo. Resultou daí que todos os loteamentos da região (Jardim Bonfiglioli, Caxingui, Previdência e Vila Sônia) receberam os melhoramentos inerentes a um loteamento (quais sejam: água, luz e saneamento básico) e a Vila Pirajussara permaneceu sem ter água encanada e luz ainda por alguns anos. A Vila Pirajussara ficou às escuras, só com a luz das lamparinas de querosene, enquanto os outros bairros já estavam iluminados. Por este motivo, passou a ser chamada de Morro do Querosene.

A Chácara da Fonte

A Chácara da Fonte

 

No bairro do Butantã, a “Chácara da Fonte” é uma área de quase 39.000 m2, com frente para a Av.  Corifeu de Azevedo Marques e lateral subindo pela Rua Santanésia que separa o BNH do Morro do Querosene. Muito mais antiga é a Rua da Fonte, que saia da Rua Padre Justino e chegava até o INOCOP, hoje interditada por um sinistro muro que impede a passagem dos pedestres. Rua da Fonte por causa da Fonte. Fonte que até hoje jorra água pura e cristalina numa gruta de pedra. Água que depois de coletada numa estranha banheira de azulejos, corre pelo descampado e escoa pelo bueiro da rua para misturar-se às águas sujas e ser jogada no Rio Pinheiros. Este é o tratamento dado à água da Fonte, uma das nascentes da Bacia do Pirajussara.

 

Na Chácara da Fonte existem 3 nascentes, duas outras além da Fonte. Inda assim, o Posto BR construído na esquina das ruas Corifeu e Santanésia, não possui reservatórios especiais que preservem o lençol freático. Seu alvará de funcionamento foi expedido como se ali não existissem nascentes.

 

Como ensinar nossas crianças a economizar água se aquela água escoa dia e noite sem qualquer proveito? Numa época de seca, a vazão da Fonte ainda é a mesma pois não é água de origem pluvial, é água que vem de dentro da rocha. Só de represarmos esta água, formando um pequeno lago, não estaremos melhorando a umidade relativa do ar?

 

A segunda nascente fica embaixo de um jaqueira. Será que esta jaqueira ainda está lá? Pois a degradação da flora tem sido violenta. As imensas mangueiras, abacateiros, pitangueiras, sibipirunas, ipês tão naturais desta região vão sendo queimados e envenenados. A comunidade denuncia mas tem sido difícil preservar esta área discriminada no Atlas de Vegetação Significativa da Cidade de São Paulo, Carta 32,  e que em 1989, o então Governador de São Paulo, Sr. Orestes Quércia, decretou que fossem preservadas as espécies vegetais existentes no local.

Além desta riqueza de flora, fauna, rocha e água, deste clima que quando ali estamos ainda sentimos o frescor da Mata Atlântica e passamos a conhecer a origem da nossa região, a Fonte nos trouxe um interessantíssimo conhecimento da nossa história. É que esta Fonte está à beira do Peabiru, caminhos muito antigos, anteriores à chegada dos Portugueses no Brasil, que cortavam a América de norte a sul, de leste a oeste. Em particular, um reconhecido caminho ligando São Vicente a Sorocaba, do qual a Av. Eng. Antonio Heitor Eiras Garcia fazia parte, que passava pela Bica e pela Fonte da Vila Pirajussara. Aliás, existe documento de 1756 onde se lê “Vila Pirajussara, importante pousada de bandeirantes”.

A rua exatamente em frente à Estação Butantã do metrô chama-se “Rua Pirajussara”, o que indica que a Vila Pirajussara chegava pelo menos até ali. E do lado de lá do Rio Pinheiros, tem a Rua Butantã. Ah! Contar esta história vai longe…. Por enquanto, vale dizer que a Fonte nos traz inúmeras informações históricas, merecendo pesquisas arqueológicas a seu redor.

 

Finalmente, cabe observar que deste lado da Rodovia Raposo Tavares não existe Parque Municipal. Com exceção da Praça Elis Regina, não temos siquer um Parque para passeio, recreação e esporte. Assim como a comunidade do Morro do Querosene também não tem um espaço apropriado para as festas de Boi, para as rodas de Capoeira, Samba de Roda e tantas outras danças, cantorias e manifestações que sempre existiram desde quando os viajantes, bandeirantes e tropeiros passavam e paravam para matar a sede e se banhar na Fonte.

Pode existir melhor destino para a Chácara da Fonte que não seja o de Parque Arqueológico, Antropológico (ou Cultural) e Ambiental ?

A criação do Parque da Fonte além de preservar a Natureza e beneficiar a população com espaço para caminhadas, recreio, ar puro, atividades esportivas e culturais, integrará o corredor ecológico que liga o Parque da Previdência aos Bosques da USP, revitalizará o quase abandonado verde do Instituto Butantã e deixará mais suportável a convivência com o já grande movimento de pessoas e veículos motores que deve aumentar com a chegada da Estação do Metrô, única estação para todos os habitantes deste lado do rio.

3 Responses to omorrodoquerosene

  1. Sou professora universitária, bacharel em Turismo e Mestre em Comunicação e tenho acompanhado o esforço desta comunidade em manter suas tradições e atividades culturais e também a preservação ambiental.
    Exemplo do coletivo ! Vamos apoiar !

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